O mundo continua perplexo com a eleição de Donald Trump. Indignado, revoltado mesmo: como é possível que os americanos tenham entregue os comandos do ainda mais influente país do mundo a um aventureiro, populista, arruaceiro, racista, xenófobo, fascista, retrógrado, reaccionário e, depois de tudo isso, ignorante e incapaz?
Como é possível que os mais excluídos dos americanos, as minorias, tenham votado em quem, de forma clara e repetida, garantiu perseguir sem tréguas? Como é possível que os americanos acreditem em quem mente com tanta falta de pudor? Como é possível que os americanos acreditem que alguém lhes resolve os problemas sem lhes apresentar soluções?
Pode dizer-se que é porque Hilllary Clinton não era apenas um candidata que não entusiasmava ninguém. Era mesmo a pior candidata possível, e o melhor adversário que Trump poderia desejar. Pode dizer-se que é o resultado da decadência das democracias ocidentais. Dos valores que se permitiram perder. Do vazio de respostas de um sistema que perdeu regras e limites. Do esgotamento das elites políticas, acomodadas no seu conforto ao sofrimento dos outros… E em grande parte corruptas.
Pode dizer-se tudo isso e muito mais. Mas pode também dizer-se que a América é isto mesmo. Que há na América duas Américas: uma, moderna e de vanguarda, da ciência, das universidades, da inovação, da tecnologia; e outra profundamente retrógrada, atrasada, com séculos de atraso, e fechada ao e do mundo. Ou que o sistema eleitoral – que curiosamente não se vê muito questionado – está ultrapassado e desfasado da actual realidade sociológica...
Há 16 anos, Al Gore ganhou claramente em votos, mas quem foi eleito foi Bush (filho). Agora, Hillary foi humilhada pelos resultados eleitorais. E no entanto, mesmo assim, foi a mais votada!
* Da minha crónica de hoje na Cister FM
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