quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Mimetismo*

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Esta semana fica assinalada pela presença entre nós da pequena Greta Thunberg, marcada por grande agitação e espectáculo à chegada, e por invulgar descrição nos dias seguintes. Mais do que os inicialmente previstos. De passagem para Madrid, para participar numa manifestação à margem de mais uma cimeira do clima, a COP 25, iniciada na passada segunda-feira e a decorrer até ao fim da próxima semana, a jovem activista sueca acabou por ficar mais uns dias em Portugal. E acabou por apenas partir na noite de ontem, momento que inevitavelmente voltaria a merecer grande destaque mediático.


Mas não foi por nada disso que as redes sociais se voltaram a agitar. Foi mesmo por ela, e pelo que representa.


O palco de eleição do escárnio e do mal dizer voltou a erguer-se para bater na pequena Greta. Não acolheu no entanto todos os que, com mais ódio do que o que lhe apontam, saem à rua para lhe atirar pedras. Outros, que dizem abominar as redes sociais e tudo o que por lá se passa, subiram a palcos mais exclusivos para, dai, fazerem exactamente o mesmo. Quiçá com mais violência ainda.


Já não é grande a imaginação, pelo que se limitam a repetir-se uns aos outros. Que” devia era estar na escola”. Que só por isso que a juventude a segue, que tudo o que seja faltar às aulas tem adesão e popularidade garantidas entre os jovens. Que vive do espectáculo. Que é instrumentalizada. Que destila ódio, como se eles próprios fizessem outra coisa. Que é doente. Que precisa de ser internada numa unidade de psiquiatria…


Ouvimos e lemos tudo isto e perguntamo-nos: porquê?


Por acaso é falso o que ela denuncia?


Não é verdade que não há planeta B?


Não está em causa o futuro das gerações, e designadamente daquela a que pertence?


Não é mesmo imperioso repensar e reformular todo um modo de vida que se esgota no horizonte dos que o vivem?


Não me parece muito difícil encontrar uma resposta afirmativa para todas estas interrogações.


Se assim é, por que reage assim tanta gente?


Porque a pequena Greta se tornou numa celebridade?


Porque se tornou numa referência para as novas gerações?


Talvez também por isso. Mas isso é o mensageiro que se quer matar para acabar com a mensagem. O que, acima de tudo, está em causa é a mensagem. Essa é que está a colocar em causa os mais poderosos interesses instalados no planeta. Que uns, poucos, têm por missão defender, e outros, muitos, se limitam simplesmente a imitar. Porventura por mimetismo!


* Da minha crónica de hoje na Cister FM

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