As teorias conspirativas sobre a origem da pandemia que virou o mundo do avesso, insinuadas por Trump e logo agarradas pelos Camilos Lourenços desta vida, parecem-me uma patetice. Não tanto pela impossibilidade de demonstração, com a discussão sempre capturada pela especulação, isso seria o menos. Mas porque desvia o foco daquilo que importaria discutir.
Se a China criou ou não o vírus, em primeira análise, e se a sua disseminação foi acidental ou propositada, é um enredo que só interessa à China, e aos interesses chineses, que nunca são apenas chineses. Ao mundo democrático e civilizado basta a inegável ocultação, durante semanas, do que estava a acontecer em Whan. Basta considerá-la acto hostil e exigir da China a sua reparação, que é como quem diz o financiamento de um programa de recuperação das economias dos outros cantos do mundo afectadas pela pandemia. Não aceitar outra coisa que não exactamente isso, e recolher a mão que tem tido estendida para receber as migalhas da campanha que a diplomacia expansionista chinesa pôs em marcha.
Tão simples quanto isto.
Abrir-se-iam então duas vias: ou a China assumiria essa obrigação, e era definitivamente colocada perante as suas responsabilidades no mundo, acabando com as ambiguidades dos seus compromissos internacionais; ou, o que seria mais provável, rejeitaria essa responsabilidade, e o mundo votá-la-ia ao isolamento com que agora nos vimos confrontados, com um total embargo comercial e político.
Só que isso acabaria com os baixos custos de produção das grandes multinacionais lá instaladas, e com a maior fatia do mercado das suas marcas de luxo. E, claro, é de custos e vendas que se fazem os lucros.
É por isso muito mais interessante alimentar teorias da conspiração. Que não passem de chinesices para que tudo fique na mesma. Ou o mais próximo possível!
Ainda ficávamos todos às escuras, quando a EDP desligasse o interruptor.
ResponderEliminar"inegável ocultação, durante semanas"
ResponderEliminarTens a certeza desta afirmação?
Soube-se em 2016, graças aos avanços na técnica, que o HIV não foi levado em 1981 para os EUA e que a primeira morte por SIDA ocorreu em 1969.
Soube-se em 2013, graças aos avanços na técnica, que a pandemia de H1N1, em 2009, matou 11 vezes mais pessoas do que as contagens oficias.
Nesta pandemia, os modelos de registo e contagem já foram alterados e continuam a ser colocados em causa em todos os países.
Isto para dizer que só o tempo permite perceber que o paciente zero não é o paciente zero, que o agente infeccioso não surge do nada e que os médicos que nele tropeçam ao início nunca têm certezas sobre terem tropeçado em doenças velhas ou novas.
Há tanto interesse em responsabilizar a China, como há interesse em alimentar as teorias da conspiração. A minha pergunta é: onde, exactamente, tais provas?
Não foi preciso passar muito tempo, nem esperar por quaisquer avanços da técnica, para que seja hoje claro que houve ocultação. Provas? A prova é o tempo. Outra coisa é especular se, a não ter havido, alguma coisa teria sido diferente. A forma como boa parte do mundo reagiu achando, primeiro, que era uma coisa lá longe com que nada tinha a ver e, depois, desvalorizando-a como fizeram os Trumps e os Boris deste mundo, permitira concluir que não. Mas isso não muda nada.
ResponderEliminarPara mim ainda não foi claro, e acredita que vou tentando estabelecer uma linha temporal...
ResponderEliminar