domingo, 2 de janeiro de 2022

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


Há 10 anos corríamos para as ATM para levantar as primeiras notas do euro e sentíamos nas mãos as primeiras moedas de euros e cêntimos. Fazíamos contas, encontrando cada um a melhor fórmula de os converter em escudos e contos.


Depressa deixamos de as fazer, até para que nos não apercebêssemos de como, num ápice, tudo ficara mais caro. Para não nos apercebermos que, por exemplo, a bica que levamos à boca várias vezes por dia passara, de repente, para o dobro do preço…Tudo ficara mais caro mas, em contrapartida, o crédito era mais fácil e mais barato e não dava para perceber como os velhos escudos tinham encolhido. E assim fomos vivendo estes dez anos!


Logo nesse dia 2 de Janeiro tive, por razões profissionais, de partir para Itália. A ausência de fronteiras tinha-me já permitido aquela agradável sensação da liberdade de movimentos mas, não ter de trocar dinheiro, abrir a carteira e não ter que estar a escolher as notas previamente separadas ou andar à procura das moedas certas, dava-me pela primeira vez a verdadeira ideia de cidadão europeu. Isso mesmo: a moeda é um instrumento de soberania mas também é algo que nos une, se calhar mesmo o maior factor de identificação comum a seguir à língua.


Dei conta naquela altura de um sentimento que ultrapassava largamente a simples comodidade que aquelas notas e moedas representavam para a minha mobilidade. Senti que aquelas notas e moedas representavam algo mais, que eram mais que uma moeda comum. Que eram qualquer coisa que nos aproximava, qualquer coisa que nos unia e que nos acrescentava identidade. Lembro-me como trocámos moedas – que, ao contrário das notas, continham elementos de diferenciação nacional – como se quiséssemos, na diferença, aprofundar a nossa identidade comum, convencidos que estávamos que aquele era um passo decisivo na construção de uma grande casa comum, fraterna, solidária e de progresso.


Hoje, dez anos depois, já não somos apenas nós – portugueses e italianos – a perceber como essas expectativas foram frustradas. Hoje é já toda a Europa que percebe que não cabemos todos nessa casa. Que é uma casa a que faltam condições básicas de sobrevivência, donde uns empurram outros até que fique vazia. Se vá degradando até que fique em ruínas, sem pedra sobre pedra…


Hoje percebemos que a construção era tão frágil que nem dez anos aguentou. Uma construção de pato bravo, sem garantia! E que não há grande vontade de lançar mão de apressadas obras de recuperação que lhe possam valer…

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